Uma das coisas que mais sinto saudades é de trabalhar dentro de uma criação em agência de publicidade. E uma das coisas que eu não pretendo voltar a fazer tão cedo é trabalhar dentro da criação de uma agência de publicidade. Digo não pretendo pois nunca se sabe o dia de amanhã.

Mas, vamos voltar ao assunto, depois conto mais sobre isso.

Quando eu trabalhava em agência tinha uma coisa que me incomodava, geralmente nas raras oportunidades em que íamos em uma reunião com a participação do cliente nos apresentavam ou como “o pessoal da criação” ou “os criativos”. Isso para mim era tão esquisito e eu não entendia a causa desse incômodo, talvez fosse porque eu não me considerasse um criativo e sim alguém que trabalhava em criação e que criativos eram os profissionais que eu admirava, Eugênio Mohallem, Washington Olivetto, Fabio Fernandes que faziam campanhas memoráveis e ganhavam os prêmios que eu tanto almejava.

Passados alguns anos quando saio da criação e passo a trabalhar em marketing dentro de empresas tive uma mudança grande de escopo de trabalho, ficar do lado “de lá” da mesa de reunião era muito mais sobre números, estratégias, briefings e orçamentos do que debater linhas criativas e conceitos de campanhas. Porém, uma coisa continuava acontecendo comigo. Em várias ocasiões pelos motivos mais aleatórios possíveis as pessoas continuavam falando que eu era criativo. E isso ainda me incomodava, ainda mais que agora nem trabalhar com criação eu trabalhava.

O que eu demorei um bom tempo para entender é que na maioria das vezes, o que me fazia ser criativo para as pessoas era simplesmente fugir do pensamento padrão.

O que elas mesmo não se davam conta é que em várias outras situações elas eram para mim criativas, pois agiam foram daquilo que eu acreditava que era o padrão. Foi aí que eu passei a entender que criatividade é uma questão de ponto de vista.

Quando eu olhava para os grandes publicitários que criavam campanhas incríveis eu ficava tentando imaginar como eles chegaram naquela ideia, naquele conceito, naquele texto. E eu acredito que a mesma coisa acontecia com os meus colegas quando eu fazia algo fora do padrão para eles.

No final, todos nós somos criativos, mas o que nos diferencia é o nosso repertório, a nossa curiosidade e a nossa disposição para romper padrões.

Explico.

Se o que nos faz criativo é olhar determinada situação por um ponto de vista diferente, precisamos ter esse outro ponto de vista e para isso é preciso ser curioso para procurar outras formas de se resolver. Contudo, só curiosidade não basta e uma das coisas que faz muita diferença é repertório.

Uma das coisas que trabalhar em criação de agência me forçou foi conhecer um pouco de tudo, afinal, precisava criar para diferentes clientes de diferentes ramos de atuação. De loja de roupas femininas a órgãos públicos.

Se interessar por assuntos que estão fora da sua área de trabalho ou do seu campo de estudos isso sim pode fazer toda a diferença. Aliado com a curiosidade vira uma combinação poderosa para você realmente encontrar soluções diferentes.

Mas, se tem uma coisa que realmente é determinante é a disposição para romper os padrões. Ser criativo muitas vezes implica em tomar riscos. Risco de desagradar, de causar estranhamento, de ir contra a corrente, de fazer o que ninguém fez. É vencer o “mas a gente sempre fez assim”!

Lá pelas tantas entendi que dá para usar a criatividade em tudo, até mesmo numa transição de carreira. E mesmo sem saber muito bem como, eu fui lá e fiz. Usei a curiosidade, o repertório e a disposição de romper padrões para sair do marketing e seguir na área de CX, Customer Experience.

Dentro da área utilizei a criatividade para encontrar outros pontos de vista para abordar o tema, ser mais divertido e menos frio para tratar de números, trazer as visões analíticas com mais leveza e sempre incentivar os colegas a buscarem outros ângulos de análise para os relatórios.

E eu acho que deu certo, pelo menos até agora.

Utilizar a criatividade fez com que eu me sentisse menos desconfortável com a mudança, pois era a zona segura onde eu podia me apoiar quando me sentia inseguro em lidar com algum assunto que não dominava totalmente.

Não é uma receita de bolo, mas seguindo esses 3 pontos, não necessariamente na mesma ordem, você realmente pode fazer coisas fora dos padrões e pode sim chegar a soluções criativas no seu dia a dia. Mas, pera lá, também não vai achando que você vai inventar o sucessor do Iphone, crie um pet mas não crie essa expectativa. Até por que se você colocar expectativas demais nas suas ideias pode acabar se bloqueando e achando tudo sem valor, quando na verdade não é bem assim. As vezes, uma solução simples é a mais criativa.

Tudo isso que eu falei agora foi resultado da vivência que tive em sair de uma criação e ir para outras áreas. E olhar para tudo isso com a minha lente de quem trabalhou com criação foi aterrorizantemente fantástico, pois eu consegui compreender o ponto de vista das pessoas que reprovavam as minhas ideias.

E esse amadurecimento que me faz hoje não querer voltar para criação de agência. Primeiro porque existe uma memória afetiva de um tempo que jamais vai voltar. E segundo que é um aprendizado enorme conviver e absorver outras formas de pensar, outros padrões.

Meu lado curioso dá pulinhos de alegria a cada conversa, a cada reunião, a cada e-mail, que por mais que dê uns cinco tipos de nervoso as vezes, sempre dá para tirar um aprendizado.


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